quinta-feira, abril 13

 

As eleições se aproximam



Incrível o poder da televisão. Transforma os adultos em crianças, as crianças em idiotas, e os idiotas em candidatos.

Tudo é contabilidade: comprando 2kg de cocaína você pega 70 anos de cadeia; comprando um político de 70kg você pega 2 anos de cocaína.

Universalmente, os criminosos sempre voltam ao local do crime. Aqui, não chegam nem a sair... Não reclamem, vocês votam neles porque querem.

Político é um ser que, gastando a dos outros, economiza toda a sua imbecilidade.

Se continuarem baixando o nível, escavando, descendo chão adentro, afundando, no próximo quinze de novembro elegeremos o prefeito de Tóquio.

Existem certos vereadores que, sinceramente, lamento a Câmara não ser de gás.

Os cientistas sacrificam ratos para descobrir o comportamento dos homens, quando seria muito mais negócio sacrificar políticos para descobrir o malcomportamento dos ratos.

Os políticos são o espelho de um povo. Retrovisor, evidentemente.

Coitado do Brasil, tão grande, e ainda usa fraudes descartáveis.

Cada um com o seu papel. O dos políticos é carbono.

Não existe mentira mais vulgar do que a verdade dita em benefício próprio.

Novo-enriquecer é o supremo sacrifício. Não se alcança uma piscina transparente sem atravessar um puta mar de lama.

segunda-feira, abril 10

 

Correio

Tenho toda uma vida para morrer.
Resta-me a idade final, menos o que já vivi.
E assim, entre créditos e débitos, finjo, pensando que não notam.
Claro que dão risadas às minha costas.


Meia história uma vez;
Outra vez, mais meia história;
E nunca parei para o óbvio:
O somatório de meias verdades jamais será uma verdade inteira.

Se disser que não te quero um centavo,
Não te esqueço um minuto,
Isso não é mentira,
É um paradoxo, já que não te odeio.

Melhor admitir que além do amor e ódio há toxinas.
Tão venenosas quanto amor e ódio são.
São muitos os castigos ou alguns,
Já que o que é muito para alguns não chega a ser algum para muitos.

A ponta da flecha, que chamam inteligência, contorna-se
Pela semelhança ou pela piedade, que se transforma em mais carinho,
Depois em vício, e passa a ser tão natural
Quanto sístole e diástole.

Quebra-se um elo? A paixão vai via crucis.
Aos que resistem, Bravo! São os normais.
A moça que sobreveio da catalepsia passou a ser chamada Sobejo da Morte.
Contornou.

Contorna-se quase tudo, menos o esplendor,
Inconveniente, insensível a uma sedução na madrugada,
Desrespeitoso a um Old Parr, a uma Shirley Horn, a uma princesa
Que a magia constrói rápido, pelo sadismo de desmanchar lentamente.

Não há quem não tenha um bilhete de amor com alguns erros de escrita.
Eu mandava cartas corretas, com intenções corretas, para pessoas especiais.
E o carteiro sempre devolvia, marcado no quadradinho:
Já foi embora, volta nunca mais.

sábado, março 18

 

Corrida




A pressa é absolutamente inútil, ó crianças inquietas; podem deixar, melhor relaxar, pois o desassossego (no meio de outros sentimentos do mesmo naipe) tem a vida inteira pra brincar com vocês.

Aproveitem bastante, meninos, o advento do barbear charmoso que envaidece; sintam-se felizes, meninas, no ajeitar antecipado e sensual do soutien; porque daí pra frente, aquilo que os dicionários chamam de depois, tem sim algumas passagens dignas de um Nobel, mas tem também um exagero de intervalos comerciais de carregação.

Seus pais, melhor dizendo, seus avós, sonharam que eram Tarzan, o Zorro, Pelé, um Beatle, quando suas mães, talvez avós, incorporavam Grace Kelly, Sophia Loren, Ava Gardner, além da busca de uma corrente de ar que levantasse a saia igualzinho à de Marylin. Então aproveitem. Escolham seu Don Diego, sua Miss Monroe, e imaginem até que ele manda chocolates pra ela, acompanhados de um bilhete à moda humana: caligrafado.

Sejam simpáticas e educadas e façam disso uma extensão do hipotálamo. Não sejam formais, isso eu peço de joelhos. Não sei por quê, mas me veio agora o pensamento de que eu iria pra cama com um patife gentil, e, jamais, com um benfeitor mal-humorado. E essa idéia não foi só um passarim que me passou - foi Hitchcock com todos os seus corvos, pardais e gaivotas.

Sim, crianças, eu sei, tô sabendo que os ursinhos de pelúcia são hoje brindes de motel, e as peladas de rua são peladas no telessexo a quatro dólares por minuto. Mas o que vocês têm por dentro é o mesmo que tinham os amigos de Darwin.

Sim, concordo que por fora há muito diet e light e heavy, e há menos aves gorjeando aqui e lá; o lucro é questão de honra, a honra questão de lucro, e os mantos budistas são da Nike, que por sua vez está estatizada.

Calma, crianças, um dia, lá na frente, vocês hão de compreender que isso é facilmente incompreensível. Assim como incompreensíveis são pais, avós, amigos, amores, filhos e a Constante de Planck.

Quem é Planck?! Paciência, o mundo vai explicar direitinho. Quando souberem dêem um toque. Prometo discrição. E uma gratidão tão esplêndida quanto o som que certas mulheres fazem na hora irreversível: murmúrio de guitarra de fado.
 

In Vino Veritas


...
Todos amaram aquela noite, a grande noite,
Quando você fez o truque de mudar a água em vinho.
Discreto e tímido perguntei no seu ouvido se aquilo não era pecado.
Meu filho - assim você falou - Existe revertido um só pecado:
De insano eu ter criado o homem, e de paga ter ele me criado.

Olhei em seus olhos, batemos as taças,
E alguém da outra mesa reclamou do vinho da casa.
Você fez um ar superior e de riso,
Pediu mais água e me deixou com a certeza
De que só o impossível me faz feliz.

domingo, março 12

 

Nêutron Virgem



Se eu disser que estou inquieto,
Não creia assim sem mais nem menos.
Às vezes usamos palavras
Só para ver o que acontece com elas e com a gente.
Apenas um jeito de começar uma conversa
Ou terminá-la indefinidamente.

É como ouvir de uma paixão partindo um não inoxidável,
E de outra, fascinada, um sim com mil watts de perdão.
Que diferença faz se uma, de saudade, nos mata e
Outra, de singela, tenta ressuscitar uma pedra?
Estranho impulso o bem-querer de longe;
Comum segredo o não-gostar de perto.

Inventar histórias é fácil; o grande ofício é enganar sendo sincero.
Não creia se eu disser que estou feliz.
Se tiver alguma serventia, também não creio muito nos outros.
Nem deixo de crer.

Somente dois prótons separam verdade de mentira:
A intenção do tiro e a crença no alvo.
Mas, se a massa de um próton é coisa com vinte e três zeros depois da vírgula,
Quem somos nós diante das partículas de intenções e crenças?

Melhor acreditar que somos inquietos e felizes,
Sujeitos, vez por outra, a um tanto de paz e de tristeza,
O palco dá pra todos; escolham locações.
Se platéia não sentem na cadeira do vizinho;
Se cenário, evitem falar caso estejam com a boca cheia de elétrons.

domingo, fevereiro 19

 

Soneto 81


Aqui, das grades deste sanatório,
São vistas criaturas tão normais,
Os eruditos, os intelectuais,
A padronização do envoltório.

Espécie de santinhos de oratório,
Na mão de cada um, um edelvais,
A sisudez como credenciais,
Não faltam bichos ao laboratório.

É cada um de si o próprio herói;
Por tolos tão amorfos, invejados;
De mestres são chamados, como sói,

Pela meiguice ingênua dos tarados,
Que nem mesmo imaginam como dói
Suportar o relincho dos letrados.
 

Soneto 17


Se é a morte o começo de uma vida
já que a vida é o princípio de uma morte
é o azar o prenúncio de uma sorte
é a chegada o início da partida

Expulsão é intróito de acolhida
cicatriz é prefácio a novo corte
medo fraco é prelúdio a grito forte
limiar é a entrada da saída

Não sei se é amor o que ela sente
não sinto mais amar sem ela perto
não sei se é verdade o que ela mente

Não minto o que seria descoberto
não sei se não saber me faz um crente
não creio que sabendo esteja certo

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